Enquanto franceses protestam contra o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos, estudantes e professores argentinos cobram recursos para as universidades. No Brasil, em meio à disputa presidencial, uma pergunta merece atenção: estamos cobrando resultados de quem governa ou apenas defendendo os políticos de nossa preferência?
A comparação não significa que os três países enfrentem os mesmos problemas. Cada sociedade tem suas instituições, circunstâncias econômicas e reivindicações. Ainda assim, os acontecimentos ajudam a discutir uma questão importante para a democracia: qual é o papel do cidadão depois de escolher um candidato?
França: protestos contra o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos
Neste sábado, 17 de outubro de 2026, manifestações ocorreram em diferentes cidades francesas. Os protestos reuniram estudantes, sindicatos e outros grupos descontentes com o custo de vida, os preços dos combustíveis e as condições dos serviços públicos, especialmente da educação.
Segundo a agência Reuters, o Ministério do Interior francês estimou em aproximadamente 550 mil o número de participantes em 110 manifestações. Organizadores, incluindo a central sindical CGT, estimaram cerca de 800 mil pessoas. As autoridades informaram aproximadamente 400 detenções.
Embora muitas pessoas tenham participado pacificamente, também houve confrontos com policiais, incêndios, depredação e saques em algumas localidades. Em Paris e em outras cidades, as forças de segurança utilizaram gás lacrimogêneo.
Esses episódios precisam ser analisados separadamente. Participar de uma manifestação pacífica para cobrar políticas públicas é uma forma legítima de participação democrática. Atos de violência e destruição, por outro lado, não se tornam legítimos apenas porque ocorrem durante um protesto por uma causa social.
A questão central é que as manifestações expressam insatisfação com problemas concretos. Os participantes cobram respostas para questões que afetam sua vida cotidiana, como o poder de compra, as condições de ensino e a qualidade dos serviços públicos.
Fontes:
- CNN Brasil: reportagem sobre prisões durante os protestos na França.
- CNN Brasil: cobertura publicada em 17 de outubro de 2026.
- Reuters: manifestações nacionais na França, 17 de outubro de 2026.
Argentina: estudantes e professores cobram financiamento das universidades
Na quinta-feira, 15 de outubro, estudantes, professores e outros manifestantes se reuniram em Buenos Aires para cobrar do governo de Javier Milei o cumprimento da legislação relacionada ao financiamento das universidades públicas.
O conflito envolve a recomposição de salários e recursos destinados às instituições de ensino superior. Os manifestantes argumentam que o financiamento é necessário para manter a qualidade do ensino e as atividades acadêmicas. O governo, por sua vez, defende seu programa de ajuste fiscal e questiona a forma de aplicação dos recursos.
A mobilização terminou com confrontos entre policiais e um grupo de manifestantes. Houve feridos, e o episódio antecipou o encerramento do protesto. A manifestação também ocorreu em outras cidades argentinas, incluindo Rosário e Córdoba.
O debate vai além de uma disputa entre governo e oposição. Envolve o financiamento do ensino superior, a remuneração dos professores, as bolsas estudantis e a capacidade das universidades de manter suas atividades.
Existe uma discussão legítima sobre equilíbrio fiscal e prioridades orçamentárias. Governos precisam decidir como distribuir recursos limitados. Mas essas escolhas também devem ser submetidas ao debate público, à fiscalização institucional e ao cumprimento das leis.
Fontes:
- G1: professores e estudantes protestam na Argentina contra cortes nas universidades.
- Agência Brasil/Reuters: manifestação contra Milei termina em confrontos na Argentina, 15 de outubro de 2026.
Brasil: a disputa eleitoral ocupa o centro do debate
No Brasil, a eleição presidencial de 2026 também evidencia uma sociedade dividida. A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro mobiliza apoiadores, campanhas, influenciadores e militantes dos dois campos políticos.
As pesquisas divulgadas entre 14 e 17 de outubro mostram uma disputa apertada para o segundo turno, previsto para 25 de outubro. Em alguns levantamentos, Flávio aparece numericamente à frente. Em outros, a diferença é pequena ou há igualdade nos votos válidos.
Os números devem ser interpretados com cuidado. Pesquisas têm datas de coleta, amostras e margens de erro distintas. Uma vantagem numérica não significa necessariamente uma vantagem estatisticamente conclusiva.
O que dizem as pesquisas eleitorais recentes?
| Instituto | Flávio | Lula | Coleta | Amostra | Margem de erro |
|---|---|---|---|---|---|
| Datafolha | 51% | 49% | 13 a 15/10 | 2.520 | ± 2 p.p. |
| CNT/MDA | 50,5% | 49,5% | 13 a 15/10 | 2.014 | ± 2,2 p.p. |
| PoderData/Aya | 50% | 50% | 13 a 15/10 | 3.000 | ± 1,8 p.p. |
| Quaest | 51,1%* | 48,9%* | 10 a 13/10 | 2.154 | ± 2 p.p. |
| Veritá | 51,1% | 48,9% | 12 a 16/10 | 15.554 | ± 1 p.p. |
No celular, deslize a tabela para a esquerda ou para a direita. Em computadores, use a barra de rolagem inferior ou as setas do teclado após selecionar a tabela.
Percentuais apresentados como votos válidos, quando disponíveis nas fontes consultadas. *Na Quaest, 51,1% e 48,9% são percentuais calculados a partir dos 46% e 44% das intenções de voto estimuladas, excluindo brancos, nulos e indecisos. Confira a metodologia e o registro de cada levantamento nos links abaixo. p.p. significa pontos percentuais.
Datafolha: entrevistou 2.520 pessoas entre 13 e 15 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Nos votos válidos, o resultado divulgado foi de 51% para Flávio e 49% para Lula. Registro no TSE: BR-00466/2026.
CNT/MDA: ouviu presencialmente 2.014 eleitores entre 13 e 15 de outubro, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Nos votos válidos, Flávio teve 50,5% e Lula, 49,5%. Registro no TSE: BR-00652/2026.
PoderData: entrevistou 3.000 eleitores por telefone entre 13 e 15 de outubro, com margem de erro de 1,8 ponto percentual e nível de confiança de 95%. O levantamento apresentou empate de 50% a 50% nos votos válidos. Registro no TSE: BR-04258/2026.
Quaest: entrevistou 2.154 pessoas com 16 anos ou mais entre 10 e 13 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Na intenção de voto estimulada, Flávio teve 46%, Lula 44%, brancos e nulos 9% e indecisos 1%. Os percentuais de votos válidos apresentados na tabela são um cálculo derivado desses números, não os percentuais brutos da pesquisa. Registro no TSE: BR-08729/2026.
Veritá: entrevistou 15.554 pessoas entre 12 e 16 de outubro, com margem de erro de um ponto percentual e nível de confiança de 95%. Nos votos válidos, Flávio registrou 51,1% e Lula, 48,9%. Registro no TSE: BR-01107/2026.
Fontes para conferir os levantamentos:
- Datafolha: Flávio tem 51% e Lula 49% dos votos válidos.
- UOL: resultados e metodologias de Datafolha, CNT/MDA, PoderData e Quaest.
- Folha: pesquisa Quaest divulgada em 14 de outubro.
- CNN Brasil: pesquisa Veritá divulgada em 17 de outubro.
Os levantamentos indicam uma disputa acirrada, mas não permitem afirmar que um candidato tenha vitória garantida. As diferenças precisam ser lidas considerando as margens de erro e os métodos de cada instituto.
O problema da política transformada em torcida
É nesse cenário que cabe uma crítica à forma como parte da sociedade brasileira participa do debate político. Em vez de cobrar resultados, muitos preferem tratar a política como uma disputa entre times: o próprio lado precisa vencer, enquanto o adversário deve ser derrotado a qualquer custo.
É o comportamento que costumo resumir na expressão “políticos de estimação”. Quando a lealdade ao candidato passa a valer mais do que a avaliação de suas decisões, erros do próprio grupo são relativizados e problemas do adversário recebem atenção desproporcional.
Isso não significa que todos os brasileiros ajam assim, nem que não existam manifestações e movimentos sociais no país. O Brasil tem uma longa história de mobilização popular e de protestos por direitos trabalhistas, educação e melhores serviços públicos.
A crítica é outra: por que a disposição de defender um político nem sempre se transforma na mesma disposição para cobrar dele metas, resultados, transparência e responsabilidade?
Um eleitor pode apoiar Lula e cobrar explicações sobre gastos públicos, inflação, serviços de saúde ou resultados de programas sociais. Também pode apoiar Flávio Bolsonaro e exigir clareza sobre suas propostas fiscais, seus compromissos com a educação, sua política econômica e a forma como pretende financiar suas promessas.
Não há contradição em apoiar um candidato e fiscalizá-lo. Pelo contrário: a fiscalização é parte do exercício da cidadania.
Direitos, gastos públicos e responsabilidade econômica
As manifestações na França e na Argentina também lembram que reivindicar direitos não elimina a necessidade de discutir como as políticas públicas serão financiadas. Serviços de qualidade exigem recursos, planejamento, gestão e escolhas orçamentárias transparentes.
Na macroeconomia, decisões sobre impostos, despesas, dívida pública e investimentos estatais podem produzir efeitos que ultrapassam o mandato de um governo. Cortes podem comprometer serviços essenciais; aumentos de gastos sem financiamento sustentável também podem criar pressões fiscais e econômicas.
Por isso, a análise de qualquer governo deve considerar mais do que discursos e anúncios. É necessário verificar o que foi efetivamente executado, quanto custou, quais resultados produziu e quem recebeu os benefícios ou suportou os custos.
Esse cuidado também é importante ao acompanhar a economia brasileira. Um indicador isolado não explica toda a situação do país, assim como uma promessa eleitoral não demonstra, por si só, que uma política funcionará.
Em outro artigo do Rota Lucrativa, “Lula e as bets: o que mudou de 2003 a 2026?”, discuto a importância de separar fatos, justificativas oficiais, efeitos mensuráveis e interpretações políticas. O mesmo método pode ser aplicado a qualquer governo, independentemente da preferência partidária do leitor.
O eleitor deve cobrar resultados, não apenas vitórias
Os protestos franceses e argentinos não devem ser idealizados. Houve reivindicações legítimas, mas também registros de violência e depredação. Tampouco é possível afirmar que a população desses países seja, em conjunto, mais consciente politicamente do que a brasileira.
A comparação útil está na natureza das cobranças. Quando cidadãos se mobilizam por custo de vida, educação e serviços públicos, colocam problemas concretos no centro da discussão. O passo seguinte é avaliar se governos e instituições respondem a essas demandas.
No Brasil, a eleição presidencial também é uma oportunidade para discutir propostas, prioridades e resultados. Mas essa oportunidade se perde quando o debate se limita a comemorar pesquisas favoráveis, atacar o adversário ou defender qualquer decisão tomada pelo candidato preferido.
O voto não é uma autorização para abandonar a fiscalização. É uma escolha que deve ser acompanhada de cobrança contínua.
Uma postura diligente exige conferir dados, examinar propostas, reconhecer erros do próprio campo e cobrar explicações de quem ocupa o poder. Isso vale para o presidente, parlamentares, governadores, prefeitos e demais autoridades.
Defender direitos não deveria depender da identidade partidária de quem os reivindica. Da mesma forma, cobrar responsabilidade fiscal, qualidade dos serviços públicos e transparência não deveria ser considerado uma traição política.
Uma democracia funciona melhor quando o cidadão deixa de agir apenas como torcedor e passa a atuar como fiscal do poder. No fim, a pergunta mais importante não é qual político venceu a discussão nas redes sociais, mas o que ele fez, o que prometeu entregar e como pode ser responsabilizado pelos resultados.
Sobre esta análise: este artigo combina fatos noticiados por veículos de imprensa com uma interpretação opinativa sobre participação política e responsabilidade pública. As opiniões expressas não devem ser confundidas com declarações factuais atribuídas às fontes.