Análise econômica
Responsabilidade fiscal: o que Donald Trump revela sobre a relação entre direita política e dívida pública
Por Lauro Bevitóri Azerêdo
Publicado em 13 de outubro de 2026 · Leitura estimada: 10 minutos
Um governo que defende o livre mercado, a redução de impostos e a diminuição da intervenção estatal é necessariamente mais responsável com o dinheiro público? A pergunta parece simples, mas exige uma análise que vá além das declarações políticas.
O debate ganhou relevância com o artigo de Claudio Adilson Gonçalez, publicado no Estadão, sob o título “Direita política não é sinônimo de responsabilidade fiscal”.
A discussão parte de uma questão importante para a economia brasileira: uma mudança no cenário político pode melhorar as expectativas dos investidores, mas isso não significa que os problemas fiscais estejam resolvidos.
O governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, oferece um estudo de caso relevante. Suas políticas tributárias e comerciais permitem examinar como medidas associadas à direita econômica podem produzir efeitos distintos sobre a arrecadação, o crescimento e a dívida pública.
Na minha análise, o ponto central é distinguir o discurso ideológico, as decisões efetivamente adotadas e os resultados econômicos observados ou projetados. São dimensões relacionadas, mas não equivalentes.
O que você vai aprender neste artigo
- O que significa responsabilidade fiscal.
- Por que ideologia e equilíbrio fiscal não são sinônimos.
- Como os cortes tributários e as tarifas de Trump afetam as contas públicas.
- O que a experiência tributária americana ensina.
- Como aplicar essa análise ao debate econômico brasileiro.
- Como avaliar as promessas fiscais de qualquer governo.
1. O que significa responsabilidade fiscal?
Responsabilidade fiscal é a condução das contas públicas de maneira compatível com a capacidade de financiamento do Estado e com a sustentabilidade da dívida ao longo do tempo.
Isso não significa que o governo precise apresentar superávit em todos os anos. Em determinadas circunstâncias, como recessões ou emergências, déficits temporários podem ser justificáveis. O problema surge quando o desequilíbrio se torna persistente e a trajetória da dívida deixa de ser sustentável.
Para compreender essa dinâmica, é importante distinguir três indicadores.
▎ Resultado primário
É a diferença entre as receitas e as despesas não financeiras do governo. Um superávit primário indica que as receitas superaram essas despesas antes do pagamento dos juros da dívida.
Um superávit primário, porém, não garante que a dívida diminuirá. Se os juros forem elevados, o governo poderá continuar registrando déficit nominal.
▎ Resultado nominal
O resultado nominal considera também os juros da dívida. Ele oferece uma visão mais ampla da necessidade de financiamento do setor público.
▎ Dívida pública em relação ao PIB
Esse indicador compara o estoque da dívida com o tamanho da economia. Sua evolução depende dos juros, do crescimento econômico, dos resultados fiscais e de outros ajustes que afetam o endividamento.
Uma aproximação simplificada da dinâmica da dívida é:
Δd ≈ (r − g) × d − p
d = dívida/PIB; r = juros reais efetivos; g = crescimento real; p = superávit primário/PIB.
A fórmula é uma aproximação e não contempla todos os fatores que afetam a dívida. Ainda assim, ajuda a entender por que juros elevados e crescimento fraco dificultam a estabilização do endividamento.
O governo precisa considerar não apenas quanto arrecada ou gasta hoje, mas também como suas decisões afetam a capacidade de financiamento nos próximos anos.
2. Direita política e responsabilidade fiscal são a mesma coisa?
A direita econômica costuma defender medidas como redução de determinados impostos, privatizações, desregulamentação e maior participação do setor privado na atividade econômica.
Dependendo de seu desenho, essas medidas podem melhorar a eficiência, estimular investimentos e reduzir determinadas obrigações do Estado. Entretanto, seus resultados não são automáticos.
Um corte de impostos pode estimular a atividade econômica, mas também reduzir a arrecadação. Uma privatização pode gerar receitas extraordinárias, mas não elimina necessariamente um déficit recorrente. Uma desregulamentação pode reduzir custos, mas seus efeitos dependem das condições de concorrência e da qualidade das instituições.
Também é possível que governos identificados com a direita ampliem subsídios, concedam benefícios tributários sem compensação suficiente ou aumentem despesas em determinadas áreas.
O mesmo rigor deve ser aplicado a governos de esquerda, que também precisam demonstrar como financiarão suas políticas e administrarão as consequências fiscais de suas decisões.
▎ O que a pesquisa acadêmica mostra?
Um estudo publicado na revista Estudos Econômicos examinou governos estaduais brasileiros entre 1986 e 2005. Os pesquisadores identificaram influência da ideologia partidária sobre os resultados fiscais naquele contexto histórico, incluindo diferenças na maneira como os governos obtinham resultados primários.
Esse achado é importante porque impede uma conclusão simplista: a ideologia pode influenciar as escolhas fiscais, mas seus efeitos dependem do período, das instituições e das decisões concretas.
O estudo não demonstra que todos os governos de direita sejam responsáveis, nem permite concluir que a orientação política seja irrelevante. Além disso, seus resultados para governos estaduais naquele período não podem ser automaticamente aplicados ao governo federal atual.
A questão mais produtiva, portanto, não é determinar qual campo político possui exclusividade sobre a responsabilidade fiscal. É verificar se as medidas adotadas produzem resultados compatíveis com os objetivos anunciados.
3. Donald Trump: cortes de impostos, tarifas e dívida pública
O governo Donald Trump é um caso útil para examinar a relação entre prioridades ideológicas e resultados fiscais. Sua agenda econômica inclui redução de impostos, incentivo à produção doméstica e utilização de tarifas sobre importações.
Essas medidas possuem objetivos diferentes e não afetam as contas públicas da mesma maneira.
▎ Cortes de impostos: crescimento econômico ou perda de arrecadação?
A redução de impostos pode aumentar a renda disponível das famílias, melhorar o retorno esperado de determinados investimentos e estimular a atividade econômica.
O efeito fiscal, entretanto, depende da relação entre a receita perdida e a arrecadação adicional que o crescimento eventualmente produz.
Se o governo reduz impostos e a economia cresce, a arrecadação pode recuperar parte da perda inicial. Mas não existe garantia de que esse efeito seja suficiente para compensar integralmente o corte.
O Congressional Budget Office (CBO), órgão independente do Congresso americano, estimou que a legislação orçamentária de 2025, sancionada como Public Law 119-21, aumentaria os déficits acumulados em aproximadamente US$ 4,7 trilhões entre 2026 e 2035, após considerar mudanças econômicas e custos adicionais de financiamento.
Esse valor é uma estimativa fiscal acumulada para um período de dez anos, não um gasto realizado em um único exercício nem uma medida isolada do custo de cada disposição da legislação.
O resultado indica que, segundo as projeções do CBO, os efeitos fiscais líquidos da legislação aumentariam o déficit. Isso não significa que todas as medidas previstas na lei tenham os mesmos efeitos econômicos ou distributivos.
Fonte primária: Congressional Budget Office, The Budget and Economic Outlook: 2026 to 2036.
▎ Tarifas comerciais: arrecadação e custos econômicos
Trump também utiliza tarifas sobre produtos importados para proteger determinados setores americanos, pressionar parceiros comerciais e gerar receitas para o governo federal.
Uma tarifa pode elevar a arrecadação aduaneira, mas seus efeitos não se limitam ao orçamento. Empresas que utilizam componentes importados podem enfrentar custos maiores. Parte desses custos pode ser transferida aos consumidores, dependendo das condições de mercado.
Além disso, parceiros comerciais podem adotar medidas de retaliação, alterando os fluxos de comércio e os incentivos ao investimento.
O CBO estimou que as tarifas mais elevadas reduziram os déficits acumulados projetados em aproximadamente US$ 3 trilhões no período de 2026 a 2035, incluindo efeitos econômicos e financeiros.
Essa estimativa representa uma contribuição para a redução dos déficits projetados. Não significa que as tarifas, isoladamente, resolvam o desequilíbrio fiscal americano.
Na mesma análise, o CBO identificou um efeito fiscal maior de aumento dos déficits associado à legislação orçamentária de 2025. Os valores precisam ser interpretados dentro do modelo de projeção e do conjunto de hipóteses utilizado pelo órgão.
▎ Os números do orçamento americano
O relatório do CBO publicado em fevereiro de 2026 apresenta o seguinte cenário para as contas federais americanas:
| Indicador | Projeção para 2026 | Interpretação |
|---|---|---|
| Déficit federal | US$ 1,9 trilhão | Despesas superiores às receitas. |
| Receitas federais | US$ 5,6 trilhões | Recursos arrecadados e outras receitas orçamentárias. |
| Despesas federais | US$ 7,4 trilhões | Gastos previstos no orçamento. |
| Dívida em poder do público | 101% do PIB | Estoque da dívida em relação à economia. |
Fonte: Congressional Budget Office, relatório de fevereiro de 2026. Valores projetados para o ano fiscal de 2026, não resultados definitivos do exercício.
O mesmo relatório projeta que a dívida federal americana em poder do público alcance 120% do PIB em 2036, caso se mantenham as condições e a legislação consideradas no cenário de referência.
Essas projeções não devem ser interpretadas como uma atribuição de toda a dívida a Trump. O endividamento americano resulta de decisões acumuladas ao longo de diferentes governos, de despesas obrigatórias, do custo dos juros e de outros fatores econômicos.
O que os números permitem afirmar é que o cenário fiscal projetado continua apresentando déficits elevados e crescimento da dívida. Esse problema precisa ser analisado independentemente do discurso político utilizado para justificar cada medida.
4. Contexto histórico: a reforma tributária americana de 2017
A discussão sobre cortes de impostos durante o governo Trump não começou em 2025. Em dezembro de 2017, durante seu primeiro mandato, Trump sancionou a legislação conhecida como Tax Cuts and Jobs Act.
A reforma alterou a tributação de empresas e indivíduos e foi apresentada como um instrumento para estimular investimentos, atividade econômica e competitividade.
O CBO estimou inicialmente que a legislação elevaria o déficit federal em aproximadamente US$ 1,4 trilhão no período de 2018 a 2027, antes de incorporar todos os efeitos macroeconômicos. Em uma análise posterior, a instituição estimou que o crescimento adicional associado à lei compensaria parte do custo fiscal, mas não sua totalidade.
Em sua avaliação publicada em 2019, o CBO estimou que os efeitos macroeconômicos da lei compensariam cerca de 20% do aumento projetado do déficit quando incluídos os custos adicionais de financiamento da dívida.
O episódio mostra uma dificuldade recorrente da política econômica: uma redução tributária pode aumentar o produto e estimular investimentos sem necessariamente produzir arrecadação adicional suficiente para pagar seu próprio custo.
Isso não significa que uma reforma tributária deva ser avaliada exclusivamente pelo déficit. Seus efeitos sobre investimentos, emprego, distribuição de renda e produtividade também importam. A questão é considerar os benefícios e os custos conjuntamente.
Fontes: estimativa inicial do CBO para a legislação de 2017 e análise posterior dos efeitos econômicos e fiscais.
Contexto histórico: por que esse episódio importa?
A reforma de 2017 demonstra que os efeitos de uma política tributária precisam ser medidos ao longo do tempo. O crescimento econômico pode compensar parte da perda de arrecadação, mas não se deve presumir que o fará integralmente. A mesma lógica deve ser aplicada às políticas fiscais atuais.
5. A reação dos mercados não comprova responsabilidade fiscal
O debate levantado pelo artigo de Claudio Adilson Gonçalez também chama a atenção para a interpretação dos movimentos dos mercados financeiros diante de mudanças no cenário político brasileiro.
Quando investidores passam a esperar reformas, redução de riscos ou melhora das contas públicas, os preços dos ativos podem mudar antes de qualquer alteração efetiva no orçamento.
As ações podem subir, a moeda nacional pode se valorizar e os juros futuros podem cair. Esses movimentos refletem expectativas e a reavaliação dos riscos pelos participantes do mercado.
Mas existe uma diferença entre a expectativa de que um governo adotará medidas responsáveis e a comprovação de que essas medidas foram implementadas com sucesso.
Imagine um cenário em que investidores antecipam uma reforma fiscal. Os ativos sobem, mas a proposta enfrenta resistência política, é modificada ou não produz os resultados esperados. Nesse caso, parte da valorização inicial pode ser revertida.
Também é possível que as reformas sejam aprovadas e melhorem as perspectivas econômicas. O resultado depende das decisões concretas, das condições externas e da capacidade de execução.
Por isso, não basta observar o comportamento da Bolsa ou do câmbio. É necessário acompanhar os resultados primários, a trajetória da dívida, as despesas com juros e a evolução das receitas.
Os movimentos dos mercados podem oferecer informações úteis sobre as expectativas dos investidores, mas não substituem a análise das contas públicas.
6. O que o caso Trump ensina sobre o Brasil?
Brasil e Estados Unidos possuem estruturas monetárias, fiscais e econômicas diferentes. A comparação deve ser feita com cuidado, sem presumir que as mesmas políticas produzirão resultados idênticos nos dois países.
Os Estados Unidos emitem a principal moeda de reserva internacional e possuem condições particulares de financiamento. O Brasil enfrenta restrições e riscos próprios, incluindo a sensibilidade das contas públicas ao custo dos juros e às expectativas econômicas.
Apesar dessas diferenças, existe uma questão comum: como financiar as decisões do governo de maneira sustentável?
Se um governo brasileiro reduzir impostos, será necessário avaliar o efeito sobre a arrecadação e o crescimento. Se ampliar despesas, será preciso identificar seu financiamento e seus resultados. Se privatizar ativos, deverá ser considerada a diferença entre receita extraordinária e melhora estrutural das contas.
O mesmo raciocínio vale para a revisão de subsídios, benefícios tributários e despesas obrigatórias.
▎ Privatizações resolvem o déficit público?
Não automaticamente. A venda de uma empresa estatal pode gerar recursos e alterar obrigações futuras, mas a receita obtida é extraordinária. Se o governo continuar apresentando um desequilíbrio recorrente entre receitas e despesas, a privatização isoladamente não resolverá o problema.
▎ Cortar gastos é sempre a melhor solução?
Também não. É necessário distinguir despesas ineficientes de investimentos que aumentam a produtividade e a capacidade de crescimento do país.
Um ajuste que elimine desperdícios pode melhorar as contas públicas sem comprometer serviços essenciais. Já a redução indiscriminada de investimentos com retorno econômico e social relevante pode prejudicar o crescimento futuro.
Da mesma forma, ampliar gastos sem avaliar seus resultados e seu financiamento pode criar obrigações permanentes incompatíveis com a capacidade fiscal do Estado.
O desafio é avaliar as despesas, as receitas e os efeitos econômicos de cada decisão, em vez de tratar uma medida isolada como solução universal.
7. Como avaliar a responsabilidade fiscal de qualquer governo
A análise fiscal exige diligência. Isso significa verificar fontes, conferir os períodos dos dados, examinar as premissas das projeções e distinguir promessas de resultados.
Para avaliar um governo de maneira consistente, vale acompanhar alguns indicadores e perguntas:
- Resultado primário: as receitas estão cobrindo as despesas não financeiras?
- Resultado nominal: qual é o efeito dos juros sobre o déficit total?
- Dívida pública: a relação entre dívida e PIB está estabilizando ou aumentando?
- Despesas obrigatórias: seu crescimento é compatível com a evolução das receitas?
- Benefícios tributários: os resultados econômicos e sociais justificam a arrecadação renunciada?
- Investimentos: o ajuste preserva despesas capazes de elevar a produtividade?
- Projeções: as estimativas de crescimento e arrecadação são plausíveis?
- Execução: as medidas anunciadas foram aprovadas e produziram os resultados previstos?
Esses critérios ajudam a separar a narrativa política dos fundamentos econômicos.
Também é importante reconhecer as limitações dos indicadores. Um resultado fiscal de um único ano pode ser influenciado por fatores extraordinários. Uma redução temporária do déficit não garante sustentabilidade no longo prazo. E uma projeção oficial depende de hipóteses que podem mudar.
Ser diligente não significa desconfiar automaticamente de todo governo. Significa exigir evidências proporcionais às afirmações e manter abertura para rever conclusões quando surgirem novos dados.
Conclusão: a responsabilidade fiscal deve ser demonstrada
O debate sobre a relação entre direita política e responsabilidade fiscal não pode ser resolvido apenas por rótulos ideológicos.
O caso de Donald Trump mostra como cortes tributários, tarifas comerciais e incentivos econômicos podem produzir efeitos fiscais diferentes. As projeções do CBO indicam que a legislação orçamentária americana de 2025 aumentaria os déficits acumulados projetados, enquanto as tarifas mais elevadas exerceriam um efeito compensatório. Ainda assim, o órgão projeta déficits elevados e aumento da dívida pública na próxima década.
Essas estimativas não permitem atribuir todo o endividamento americano a um único presidente. Elas permitem, porém, examinar os efeitos projetados das medidas e verificar se os resultados são compatíveis com as metas anunciadas.
No Brasil, o mesmo cuidado deve orientar a avaliação de governos de diferentes orientações políticas. Cortes de impostos, aumento de despesas, privatizações e reformas precisam ser examinados conforme seu financiamento, seus custos e seus resultados.
Na minha análise, a pergunta mais importante não é qual campo político possui o monopólio da responsabilidade fiscal, mas quais decisões conseguem estabilizar a dívida, preservar investimentos produtivos e sustentar o crescimento econômico.
Os mercados podem antecipar mudanças em poucos dias. A construção de uma trajetória fiscal sustentável, entretanto, exige decisões consistentes, instituições capazes de implementá-las e resultados que possam ser verificados ao longo do tempo.
Em economia, diligência significa não confundir expectativa com evidência, discurso com execução ou uma melhora temporária com uma solução estrutural.
Aviso editorial
Este artigo possui finalidade educativa e informativa. As projeções fiscais estão sujeitas a revisões e não constituem previsões certas. As interpretações apresentadas devem ser consideradas em conjunto com as fontes e as limitações metodológicas descritas no texto.
Escrito por Lauro Bevitóri Azerêdo · Rota Lucrativa
